As memórias de um veterano

As memórias são uma parte essencial no ser de um veterano da Grande Guerra. Quando adentrei naquele lugar e olhei nos olhos do senhor Alberides, questionei-me se aquele quase um século de vida conseguiria transmitir o passado com lucidez. Contradito fui de forma bem-vinda, pois ao perceber o seu sorriso se abrindo em um quase preâmbulo das coisas que viria a lembrar com tanta clareza, fui acometido pela sensação de que presenciaria uma das melhores experiências dos últimos tempos. De fato presenciei… De coração aberto fui recebido, e as memórias eu fui agraciado.

Setenta anos podem ter sido o tempo suficiente para que cada palavra dita naquele dia fossem lapidada e decorada, mas os fatos estavam lá em sua forma única. A pólvora e o sangue rebatiam em minha mente a cada descrição daqueles dias soturnos, sucumbindo em maravilha ao perceber o quanto aquele velho senhor estava feliz ao contar o que ele sabia. Ele não negava que os fatos narrados mereciam apenas ficar no passado, clamando até ao divino para que algo do tipo nunca mais acontecesse… Mas ele exasperava em gozo ao colocar pra fora as suas lembranças. Era como um pai contando ao filho o seu passado. Era como se naqueles instantes tudo que ele estivesse dizendo fosse essencial a sua natureza…

As memórias são importantes para um veterano de guerra, eu me atrevo a repetir. São vitais ao seu ser. É a potência das suas motivações. Traz-lhe jovialidade e felicidade… Talvez, em um país que não sabe o valor de uma geração que lutou pela liberdade, esse simples ato de lembrar e passar para frente traga um motivo de ser feliz a mais. A sombra do esquecimento potencializa a exasperação, afastando-se do medo de ser imêmore… Até mesmo quando das memórias ele pescou a morte do seu pai, fato acontecido durante o período que lutou nos campos de batalha da Itália, chegando até a chorar, ele conseguiu talhar um sorriso em seus lábios trêmulos.

Foi ao perceber, ao lado da minha colega, essa essencialidade daquele homem que percebi o jornalismo como possuidor de um quê especial. É como um trabalho de resgate… De resgatar fatos que, se não recebidos a devida atenção, se afogam nas águas do esquecimento. E a retribuição? Presenciar aquele sorriso após ouvir “conte-me a sua história” já basta…

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